quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O ÓBVIO DA REPRESENTAÇÃO


O significado de uma imagem isolada pode ser completamente diverso daquele que ela assume encaixada num contexto.
Durante a leitura analítica, o olhar recorta a imagem em segmentos para melhor ler as partes. logo após, a partir dos recortes, pode buscar uma síntese, um tema ou motivo central que reuna e dê coerência ao todo.
O significado global de um texto não é o resultado da mera soma de suas partes, mas de uma certa combinação geradora de sentidos.

Selecionei, a obra acima "Isto não é um cachimbo", de René Magritte - 1898/1987, para mostrar que o leitor ingênuo permanece no nível figurativo e não é capaz, como faz o leitor mais avisado, de receber os significados mais abstratos que estão sob os termos concretos.
Estive pensando, nas vantagens e desvantagens, de utilizar imagens para ilustrar meus textos e poesias. Uma figura isolada não tem um significado em si mesma, cada uma delas implica idéias muito variadas. No entanto, como uma figura isolada não tem sentido único, a quebra da coerência textual, com a introdução de uma figura impertinente ao contexto que está sendo desenvolvido não cria novos sentidos: dá apenas a impressão de que quem produziu o texto não é capaz de escrever coerentemente.
Querendo evitar pressupostos, interferência na opinião alheia, induzir o leitor a interpretar de acordo com minha maneira de pensar, é que eu estou pensando em não mais, utilizar esse recurso para enriquecer(?) os meus escritos.
Também, é verdade que as imagens constituem um verdadeiro discurso visual que caminha paralelo e complementa o texto, enriquecendo a exposição teórica e estimula o interesse do leitor.
Os símbolos ou imagens, que empregamos como recurso ilustrativo, valorizam de alguma forma a obra literária?
A imagem de um homem nu, sentado, pensando no impeachment do Lula, é a mesma coisa do "Penseur" de Rodin?
É inútil discutirmos aqui a diferença muito sabida entre arte e artifício. É suficiente notar que, gramaticalmente, tem a mesma raiz. Pois basta que duas coisas tenham gramaticalmente a mesma raiz para não terem a mínima analogia.
Se dou ao leitor uma imagem que ele não tinha antes, ela o faz; ele a refaz. Ou, rebusca na memória - e há de se encontrar logo uma reminiscência qualquer de qualquer coisa lida, vista ou ouvida. É ou não é?