sábado, 17 de janeiro de 2009

DESTINO OU FATALIDADE


Quando a vi pela primeira vez, era um fim de tarde do mês de fevereiro, ela estava sentada em uma calçada, próxima às áreas de circulação externa do CONIC, no Setor de Diversões Sul. Pousada em seu colo havia uma bolsinha, que, a julgar pelo tamanho e aparência, não era difícil imaginar o que continha: maquiagem barata, um vale transporte, alguns trocados, a chave de algum quartinho alugado em uma cidade satélite...

De estatura média, mais magra do que gorda, não aparentava ter mais que dezesseis anos. A cor morena de sua pele evidenciava as características históricas da miscigenação do nosso povo, o que torna as mulheres brasileiras tão interessantes.

Os olhos da menina, verde-claros, refletiam preocupação, de vez em quando levantava-se, dava uma voltinha, girava sua bolsinha e voltava a sentar-se no mesmo lugar, como se estivesse esperando alguém, com quem não havia marcado. Os outros traços de seu rosto compunham uma fisionomia extraordinária seus lábios carnudos proferiam frases inteligentes, que demonstravam vivacidade e esperteza, predicados que preconceituosamente não são associados a alguém de sua “profissão”.

Shirley era simples na maneira de se vestir (outra característica que não é própria da sua profissão), assim como eram simples as suas atitudes, era um exemplo claro daquelas que abrem mão de seus sonhos para viver em função de outras pessoas, reprimindo toda sua sensibilidade.

Singela, de personalidade forte, não sei se, no íntimo, desejava um outro modo de viver. Muito provavelmente, sim. Mas percebi que naquela “quase menina” havia um forte sentimento de conformação, próprio daqueles que são simples de coração. Shirley era filha do sertão, tão forte e bela quanto as flores que lá nascem em meio à aridez. Sobreviveu ao clima e às privações. No entanto, a sua provação maior veio de uma pessoa que deveria amá-la e ser amado por ela, seu pai.

Sua família era de pequenos agricultores que, apesar da pobreza tão peculiar aos sertanejos do nordeste brasileiro, viviam felizes e em liberdade, aos poucos esses tempos felizes passaram. A vida para Shirley tornou-se mais difícil. Aos 12 anos descobriu o que significava ser mulher e ter que sofrer de maneira passiva. Numa cultura machista como aquela em que foi criada, mulher não ficava virgem por muito tempo, portanto, o pai achava que as filhas não eram tão bom investimento quanto os filhos, que poderiam ser produtivos no trabalho.

O pai de Shirley era um sertanejo forte com cerca de 1,80 metro de altura, pele mais clara que a de Shirley. Seu rosto era suave mas, tornava-se uma escultura de pedra quando transtornado pela bebida, hábito que adquiriu muito cedo e que somado a ignorância e o sofrimento em que vivia, acabou por transformá-lo em aberração.

Certo dia, o pai chegou a casa, uma tarde, e a chamou com voz suave:

- Venha cá.

Normalmente ele era muito severo, por isso começou a ficar desconfiada. Ele a sentou em seus joelhos...

- Sabe – começou, você tem sido uma boa menina.

Agora ela sabia que algo sério estava acontecendo.

- Tem trabalhado muito, tomado conta da casa e de seus irmãos.
Quero que sabia que gosto muito de você.

Quando o pai lhe disse isso, pensou que estivesse com medo que ela fugisse, como fizera sua irmã mais velha.

No dia seguinte, Shirley cuidava de seus afazeres, que não eram poucos, quando ouviu o pai lhe chamar:

- Venha cá, minha querida...

Arrastou-a para um local deserto da casa e disse:

- Deite-se ali – ordenou, apontando para uma cama de palhas improvisada.

- Vai doer! Conseguiu ainda exclamar.

- Tente ser boazinha, meu bem! Vai ser rápido.

Deitada ali sozinha com as pernas ensangüentadas, não podia fazer nada a não ser se perguntar: Por quê?

Sentada, no dia seguinte, observava o vazio daquela paisagem desolada do lugar onde crescera. Percebera então, o que havia acontecido com sua irmã mais velha num passado não muito distante.

- Também vou fugir, decidiu.

Ela não sabia que aquela direção não levava a lugar algum; apenas corria. Devagar, pois ainda sentia dor em suas entranhas. Quando o sol se pôs, já havia caminhado bastante. Enquanto descansava alguns instantes, a paisagem estendia-se até o infinito. Faminta, sedenta, reiniciou a caminhada sem destino.

Destino ela bem que tinha, em meio aos poucos pertences que levava consigo, encontrava-se uma carta de sua irmã, que a família recebera no último natal, na qual continha o endereço de onde morava.

Brasília, a “cidade radiosa” dos sonhos modernistas com seus largos gramados, feitos para contemplação, hoje recebe em meio a tantos outros anônimos, a cidadã Shirley Terezinha. Chegou aqui várias semanas depois de fugir. Pelo caminho, estranhos a abrigaram, deram-lhe dinheiro para viagem. Uma vez aqui chegando, pediu informação para chegar a Ceilândia onde morava sua irmã Ana. Caminhou por ruas escuras até chegar a um pequeno barraco. Encontrou sua irmã dormindo e a acordou.

- O que está fazendo aqui? Perguntou ela meio “zonza” – será que estou sonhando? Ana morava com outras mulheres em dois cômodos apertados, mas, com certa relutância, concordou que Shirley ficasse o tempo que fosse preciso.

Shirley cuidava do barraco, lavava as roupas, fazia as compras. No entanto, ficou claro que as duas não eram nada parecidas. Ana era autoritária e a tratava com se ainda fosse aquela menina que deixara para trás alguns anos antes, cinco para ser mais exato.

Através de outras pessoas que conhecera na vizinhança descobriu que sua irmã não levava uma vida muito regular. Além de receber homens em sua casa, estava envolvida com traficantes conhecidos no lugar.

Assim sendo, na manhã seguinte começou sua peregrinação em busca de um emprego que lhe permitisse sobreviver independentemente. O que não seria fácil, pois, com sua pouca instrução o máximo que conseguiu foi trabalho em “casa-de-família”. Acreditando que seus problemas iriam acabar, mais uma vez se enganou. Não era fácil para Shirley, bonita como era, manter afastados o patrão e os filhos tarados; muitas vezes fora despedida por não ceder aos assédios, e foi entre uma perda e outra de emprego que ela resolveu, já cansada, a voltar para a casa da irmã.

- Se te querem tanto assim, é melhor que paguem por isso – foi argumento de Ana.

E assim, ajudada pelas amigas de sua irmã, Shirley se aventurou pelo caminho da prostituição.

Nas noites que se seguiram, a menina foi se enveredando naquela vida. Todas achavam que ela ia desistir, mas foi agüentando. Até então havia economizado 200 reais, que enviou para mãe por um parente. Ela, porém, nunca viu um centavo desse dinheiro.

Numa noite de março de 2001, quando fazia seu “passeio” noturno pelo CONIC, viu que um homem estranho olhava fixamente para ela. Era branco, apresentava uns 40 anos e tinha olhos verdes, como os seus. Acabava de sair de uma Faculdade de artes que existe no local.

Daí por diante, toda vez que o via ele apenas sorria educadamente. Até que um dia, entregou a ela um cartão. Guardou-o na bolsa e ficou olhando o homem, enquanto se afastava.

Em casa, mostrou o cartão para a irmã.

- O que diz aqui? Perguntou.

- É o cartão de um Fotógrafo e Jornalista.

Guardou o cartão novamente. Algo lhe dizia para não se desfazer dele.

Uma tarde tomava café no Eldorado com uma amiga, quando deu com o cartão do fotógrafo na bolsa, mostrou-o à amiga e contou sua história, e concluiu:

- Nunca entendi o que ele queria.

- Por que não liga e pergunta?

- Liga você! Eu fico com vergonha, ele me deixa “avexada”.

Assim foi feito, no dia seguinte, marcaram um encontro e o Fotógrafo lhe explicou: gostaria de fotografá-la e se possível, também gostaria de uma entrevista. No dia seguinte, hora e local marcado, no parque da cidade, teve início a entrevista:

- Não sei que tipo de história você espera de mim, nem para quê!

- Tenho certeza que você sendo uma pessoa interessante, também deve ter uma história interessante!

Nesse momento, Shirley deixou transparecer que trazia velhas feridas mal cicatrizadas. E, o Jornalista sentiu que teria que conduzir aquela entrevista com bastante cuidado.

- Você não é a única – comentou – Tenho o maior respeito por vocês.

- Só queria entender o por que?

- Pelo ridículo disso tudo - arriscou ele.

- Farei o melhor que puder...

... E assim, rezo para que mulher alguma tenha que sentir a dor e a vergonha que até hoje sinto.

O Jornalista fez um longo silêncio, como se tivesse dificuldade em digerir tudo que acabava de ouvir. E por fim disse:

- Venha comigo! Vou te levar para casa.

E saíram de mãos dadas. Naquele momento o Jornalista experimentava uma grande certeza, que sua vida de alguma forma estava ligada a vida daquela menina.



*Qualquer semelhança com o autor, não terá sido mera coincidência.


T@CITO/XANADU